domingo, 6 de fevereiro de 2011

UM POUCO DE POESIA...

Em 2010 participei do "6º Desafio dos Escritores", uma oficina literária virtual coordenada pelo Núcleo de Literatura da Câmara dos Deputados. É também um concurso literário - e dos mais difíceis - que se estende por vários meses, com dez "provocações" (temas obrigatórios propostos aos participantes), notas e comentários dos jurados e, no final, escolha dos vencedores. Depois de ter praticamente abandonado a poesia por mais de duas décadas, aceitei o desafio de retomar esse gênero essencialmente literário. E o resultado me deixou feliz! Não só pelo 2º lugar na categoria "Poesia Livre" (havia também "Soneto") e por ter um dos meus poemas escolhido como o melhor do certame ("Sobre tempo e memória"), mas também - e principalmente - pelo grande aprendizado que experimentei, ao qual pretendo dar continuidade.

De um em um, vou postar aqui alguns dos poemas inscritos no "Desafio". Comentários, como sempre, serão bem-vindos.


SOBRE DORES E ABANDONOS
I

Tua dor é a minha morada.
Mas sou bêbado errante,
à procura de um bálsamo.

Estar contigo
é definir meu lugar no mundo.
(Como um animal ferido vislumbrasse sombra
à beira de um rio de águas límpidas,
e numa pedra macia repousasse a cabeça,
à espera do fim.)

II

Não sei quem és.
Nem sei quem sou.
(Busco respostas na poesia,
mas a poesia é inútil.)

Nós dois: o munduniverso.
(Falácia que inventei
como um ponto de fuga
– mas a palavra em si
é também um labirinto.)

III

Por mais que eu percorra desvios,
esquinas, becos, outros corpos,
retorno sempre ao não-lugar
em que te escondes de mim
(e, ensimesmada, de ti).

IV

Resigno-me, tal cordeiro
(eu, que nem sou dado
a essas metáforas tolas),
e me quedo, silente.

Se há saída, não sei.
Aliás, não me interessa.
(Há muito deixei ao acaso
a direção dos meus passos.)

V

O que desejo, enfim,
é dormir o sono tranqüilo e inocente
dos calhordas,
e acordar sem cansaço ou culpa.

Ou ainda, quando insone,
acender um cigarro
(eu, que nem fumo)
e, pela janela do milésimo andar,
entre uma baforada e outra,
ver a cidade diluir-se em luzes e abandonos.
E acompanhar a dança imprecisa
da fumaça
a tecer teu holograma-esfinge,
que se esvai entre meus dedos,
na impossibilidade mesma
do toque.

Edelson Nagues

(Poema inscrito na 2ª etapa do 6º Desafio dos Escritores e finalista do Concurso de Poesias Augusto dos Anjos 2010, promovido pela Secretaria de Cultura de Leopoldina/MG)

Um comentário:

ELÓI ALVES/ letrófilo disse...

Gostei muito deste poema, acho que ele mostra muito de nossas época, de nosso homens; abraço grato ao poeta